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Entrevista Brasil Diverso
Artigo publicado originalmente O Amarelinho

A maioria segregada : apesar de representar 56% da população brasileira, negros e pardos enfrentam muitas barreiras para entrar no mercado formal de trabalho.

Por Kazuhiro Kurita | 27 julho 2018

O decreto assinado pelo governo federal busca fortalecer a inserção dos jovens negros no mercado formal de trabalho. A medida é um reconhecimento do histórico de exclusão deste grupo étnico que é a maioria da população brasileira. Serão incluídos aqueles que se declararem negros ou pardos conforme o quesito cor ou raça utilizado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Para o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares (Unipalmares), José Vicente, o decreto reconhece a existência de um muro, de um racismo institucional. “Se pegarmos o quadro de estagiários em órgãos públicos federais, vamos constatar que os negros praticamente inexistem. E não estão presentes também em grande parte das organizações privadas. Por conta disso, o decreto vem para tentar responder a este desafio e superar este limite”, afirma.

Segundo o reitor, os jovens negros terão oportunidade de ingressar no primeiro emprego, ter um rendimento mínimo que permita manter seus custos diários e permanecer na escola, além de fazer treinamentos indispensáveis para dar saltos posteriores na carreira. “O decreto pode possibilitar a criação de aproximadamente 40 mil vagas para estes jovens”, projeta.

A fundadora do Núcleo de Consciência Negra na Universidade de São Paulo (USP), Maria José Menezes, diz que se trata de uma medida importante. “O governo, desde o ano 2000, pressionado pela população, se deu conta das causas da grande desigualdade racial. E em qualquer país civilizado, o Estado se vê obrigado a tomar medidas para diminuir isto. Então, esta é mais uma das poucas políticas de ações afirmativas para o País”, diz.

Maria José lembra que, historicamente, os governos tomavam medidas que prejudicavam muito a população negra brasileira. Para ela, todo o processo de exclusão, de racismo estrutural, que sempre teve respaldo do Estado, precisa ser combatido. “Se levarmos em conta que negros e pardos representam mais da metade da população, 30% ainda é pouco, mas é um começo”, diz ela, acrescentando que o mercado de trabalho é excludente, com o trabalhador negro sendo sempre preterido em relação ao branco em igualdade de condições. “Nesta crise de desemprego geral, o quadro é desesperadamente crítico principalmente para os afrodescendentes”, garante.

José Vicente concorda com a colocação de Maria José. “Por incrível que possa parecer, no maior país miscigenado do mundo, não há negros no primeiro, segundo ou terceiro escalão das 10 mil maiores empresas públicas ou privadas. Do ponto de vista histórico e das intervenções excludentes, nem no apartheid da África do Sul ou dos Estados Unidos foi registrada uma não presença de negros tão profunda como no Brasil, sem uma lei dizendo que aqui existe um regime de segregação”, lamenta.

Ambos compartilham a opinião de que a meritocracia preconizada pelos neoliberais e o mercado é para perpetuar os privilégios de uma minoria. “Na verdade, a meritocracia é inimiga dos negros, porque tenta produzir um conceito impossível do ponto de vista teórico e objetivo, ou seja, colocar na disputa, com a mesma possibilidade, público distintos. O escolhido será sempre aquele com mais condições de disputar o mérito, ou seja, quem teve melhor conjuntura para se preparar”, defende.

Para o reitor da Unipalmares, meritocracia nestas condições é definir uma reserva de mercado para os não negros, que podem se qualificar ou tem relacionamentos com quem está no poder ou em postos executivos em empresas. “O sacrifício é seletivo”, complementa Maria José.

FONTE: O Amarelinho

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